Seja mais
cachorro porque humano não dá para ser mais com seus costumeiros erros, que
dizem constituir a meta para o acerto. O cachorro é simples, porque
simplesmente é o que é – um quadrúpede carinhoso, obediente à sua natureza, que
rosna, late, balança a cauda, lambe suas mãos afetuosamente e se não se desviar
atinge o rosto e a boca.
Acompanha-nos
pela longa história da humanidade, apascenta gado, late quando chega algum
desconhecido para alertá-lo e aos seus próximos, cuida da casa, companhia para
crianças e idosos, sem ele nossa vida seria muito mais árida.
Sempre
pronto para gracejos e travessuras com qualquer que lhe dê atenção, a aparente
carência nos une com as necessidades recíprocas de atenção inerente a todo
mamífero. Embora carente de atenção é descolado, aos poucos meses de vida
torna-se independente da mãe, está sempre buscando atenção como forma de
aprovação que tão bem conhecemos.
Grandes,
pequenos, lisos ou peludos, sua graça e porte enche de orgulho qualquer ser com
o mínimo de sensibilidade mesmo os não mamíferos. Lembro-me de uma ocasião em
que passeava no parque com um de meus cães, mestiço de Golden Retriever com
vira-latas, em que um dos bem-te-vis sobrevoava a cabeça dele em várias
manobras e Scooby, esse era seu nome, latia em busca de afugentá-lo, que não
entendia que era uma brincadeira do pássaro.
Outra em
que oferecia alimento a um morador de rua que estava dormindo, o cão percebeu
minha presença e latiu muito até que o dono acordasse, pois não sabia o que
queria ao me aproximar. Ele nos protege não apenas dos perigos inerentes a cada
situação, mas o mais fiel companheiro, nos resguarda de nossa genética solidão
no mundo.
O meu
primeiro cachorro era enorme, maior que eu, com menos de cinco anos de idade,
seu nome era Boca Negra, era tão grande que sua pata era do tamanho da mão de
meu pai. Fila Brasileiro, ninguém entrava em nossa casa ou sequer avançava além
do portão sem que fosse intimidado pela sua presença, morreu envenenado por
algum monstro bípede.
Tinha a
Tirita e a Teteia, duas cadelinhas malhadas sem raça definida, a segunda filha
da primeira, seguiram a linhagem dos
cães domésticos, depois houve um vácuo na continuidade de suas presenças em
casa. Talvez representando a lacuna que se ostentava vazia na vida familiar ou
talvez somente a própria.
Sabem de
nossas alegrias e tristezas e sempre tentam nos insuflar com seu ânimo
inesgotável, sua energia inexaurível e com seus meigos sorrisos vistos não
somente no balanço da cauda, mas em seus olhos tranquilos e alegres. Sempre
úmidos e viçosos em busca de nossa atenção para que possam nos alegrar ou
simplesmente redobrar o que já se sente nesse quesito.
Poderia
escrever laudas, páginas e volumes que jamais esgotaria a capacidade de
descrever as qualidades e benefícios desse único e inesquecível companheiro,
pois nenhum esqueci até hoje. Quero ser mais, mais vira-latas, mais Golden,
mais animal no sentido mais puro desse ser encantador.