segunda-feira, 15 de maio de 2017

Vida

              Seja mais cachorro porque humano não dá para ser mais com seus costumeiros erros, que dizem constituir a meta para o acerto. O cachorro é simples, porque simplesmente é o que é – um quadrúpede carinhoso, obediente à sua natureza, que rosna, late, balança a cauda, lambe suas mãos afetuosamente e se não se desviar atinge o rosto e a boca.
              Acompanha-nos pela longa história da humanidade, apascenta gado, late quando chega algum desconhecido para alertá-lo e aos seus próximos, cuida da casa, companhia para crianças e idosos, sem ele nossa vida seria muito mais árida.
              Sempre pronto para gracejos e travessuras com qualquer que lhe dê atenção, a aparente carência nos une com as necessidades recíprocas de atenção inerente a todo mamífero. Embora carente de atenção é descolado, aos poucos meses de vida torna-se independente da mãe, está sempre buscando atenção como forma de aprovação que tão bem conhecemos.
              Grandes, pequenos, lisos ou peludos, sua graça e porte enche de orgulho qualquer ser com o mínimo de sensibilidade mesmo os não mamíferos. Lembro-me de uma ocasião em que passeava no parque com um de meus cães, mestiço de Golden Retriever com vira-latas, em que um dos bem-te-vis sobrevoava a cabeça dele em várias manobras e Scooby, esse era seu nome, latia em busca de afugentá-lo, que não entendia que era uma brincadeira do pássaro.
              Outra em que oferecia alimento a um morador de rua que estava dormindo, o cão percebeu minha presença e latiu muito até que o dono acordasse, pois não sabia o que queria ao me aproximar. Ele nos protege não apenas dos perigos inerentes a cada situação, mas o mais fiel companheiro, nos resguarda de nossa genética solidão no mundo.
              O meu primeiro cachorro era enorme, maior que eu, com menos de cinco anos de idade, seu nome era Boca Negra, era tão grande que sua pata era do tamanho da mão de meu pai. Fila Brasileiro, ninguém entrava em nossa casa ou sequer avançava além do portão sem que fosse intimidado pela sua presença, morreu envenenado por algum monstro bípede.
              Tinha a Tirita e a Teteia, duas cadelinhas malhadas sem raça definida, a segunda filha da primeira,  seguiram a linhagem dos cães domésticos, depois houve um vácuo na continuidade de suas presenças em casa. Talvez representando a lacuna que se ostentava vazia na vida familiar ou talvez somente a própria.
              Sabem de nossas alegrias e tristezas e sempre tentam nos insuflar com seu ânimo inesgotável, sua energia inexaurível e com seus meigos sorrisos vistos não somente no balanço da cauda, mas em seus olhos tranquilos e alegres. Sempre úmidos e viçosos em busca de nossa atenção para que possam nos alegrar ou simplesmente redobrar o que já se sente nesse quesito.

              Poderia escrever laudas, páginas e volumes que jamais esgotaria a capacidade de descrever as qualidades e benefícios desse único e inesquecível companheiro, pois nenhum esqueci até hoje. Quero ser mais, mais vira-latas, mais Golden, mais animal no sentido mais puro desse ser encantador.