terça-feira, 28 de julho de 2020

Madrugada

Na edicola da madrugada
Nos vimos algumas vezes
Namoramos e beijamos
Somente o guarda noturno
Que no prédio da frente
Deveria a certa hora cochilar
Quem sabe o peito varonil
Roncar profundamente
E nós éramos silêncio
Errantes nas madrugadas
Procurávamos restaurantes
Às três da madrugada
No Bexiga tinha um solene
Engraçado, únicos clientes
Tive o dia com sol à noite
E noites nas tardes da vida
Quando só nos conhecíamos

domingo, 12 de abril de 2020

A peste


Cada momento é raro, precioso e, o simples ato de respirar é surpreendente e majestoso. Como cada elemento a partir da célula consegue se articular com o meio e de um número incrível de mecanismos e proteínas consegue realizar todas as atividades para nos tornarmos individuais e autônomos.

Nesses tempos incertos quando milhares caem todos os dias e que olhamos registros de poucos meses antes em vídeos, filmes e outros meios, nos surpreendemos e nos perguntamos onde estão aquelas pessoas. Que mundo era aquele tão longínquo e estranho, tão recente.

Tivemos não apenas que parar, mas olhar para a portinhola que dá dentro da gente. Ver-se por inteiro, sem a desculpa da correria – ter que ir trabalhar, buscar as crianças na escola, cursinho, faculdade, encontrar amigos e familiares – e adentrar-se pode não ser agradável. 

Podemos encontrar nossos monstros e talvez lembrar de quando nasceram e porque eles foram criados. Começamos na gênese como era e porque estou e esse deus arrogante construído em certezas, em planilhas, planejamento, especulação e gestão soçobra em pequena tempestade e agarra-se ao confinamento e isolamento social.

Voltamos à caverna e as luzes projetadas na parede são as dos holofotes que insistimos em deixar acessos e quando se apagarem perderemos a luz guia.

O mundo convulsiona porque foi alimentado com ganância e agora regurgita a violência.

 


sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Jardim

Nunca plantei flor
Eis que surgiu você
Sorridente e sedutor
Lindo e humano
Melhor jardim
Jamais se poderá cultivar
Cercado de delicadezas
Em meio ao mundo bruto
Que dá viravoltas
E corteja o Paleolítico
Logicamente despontou
Como Ra, soberano absoluto
O Sol que se estendia
Sobre a vida
Que nem sabia existir

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Você

Quando as pedras cantarem
A música que na infância ouvira
E os lugares e pessoas
Se tornarem distantes
Saberei que é hora de voltar
Terei reconquistado
A imobilidade dos tempos
O canto das sereias comuns
Estão no trend da eterna
E revigorante boa nova
Os tempos passam chulos
Os zumbis pintam horizontes
O vazio está cheio de você
E o debater-se nas asas do destino
Tão largo e solto
Esgarçar a vela, se esguicha
Depois de tão longa dança
Muda de cor pelo insuflar
E o vento intenso e fresco
Faz finalmente apagar a chama

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Horizonte

Eu vejo âncoras
Soçobrarem em naufrágio
Atoladas  em sofismas
Que engolem facilmente

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Lettere

Realmente, mo princípio era o verbo, era ele inerte até que começasse a lê-lo e então manifestar-se na realidade por meio de minha consciência, registro e classificação, assim muitas caixinhas foram se reunindo no escaninho. 
As palavras com sua imperiosidade sempre me fascinaram e capturaram, lembro-me refém da primeira mais longa que li em gibis, em épocas em que eram um pouco mais perigosos para o intelecto – inexpugnável. Pareceu naquele momento uma queima de fogos de artifício que aprisionou minha mente na sonoridade e na sensação de grandiosidade que ela transmitia na sua pronúncia e nas diversas articulações e movimentos que impunha aos órgãos fonadores e no desenho fonoaudiológico dos órgãos envolvidos na produção do fonema.
É claro que o menino não tinha a teoria, a leitura é do homem, mas o conhecimento mesmo não elucidado à época, era patente e potente de contaminação de uma doença precária e rara e ainda sem medicamento, se por um lado ser prisioneiro de manias, modos, estilos e toda a parafernália que os gostos e desgostos inerentes sucumbem em cada ser humano, a minha prisão é essa e sou meu aparente carcereiro, forro minha mente de livros imaginários, porque apenas conceitos que inauguram viagens, leituras e depósitos em moedas de valores próprios e intrínsecos a todo ser humano, como ando, vejo, sinto, respiro e pontuo com cada vírgula da vida.
Hoje, quando revisito a palavra décadas depois ela parece tão perigosa quanto irônica, a negação afirma a realidade e vice-versa num fluxo que não se pode definir as forças que o conduz, senão por meio de um olhar mais apurado, que no momento não detenho em meu bolso de viagem.
As palavras são assim, nos alijam do próprio sentido da vida, porque possuem significados múltiplos, portais de navegação para uma viagem sem rota escrita.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Screenshot

E se eu não largar o velho, como o íntimo ou o original pode vir? Não, não estava pensando em Jesus, Allah, nem tampouco em qualquer deus ou divindade. Estava pensando em como poderia parar de repetir tantas verdades perfeitas, todas sem exceção, donas absolutas da verdade. Aquelas que nos deparamos repetindo mentalmente, sem sequer questionar, como papagaios que têm uma longa memória para poucas sentenças.

Outro dia um desconhecido, no meio da calçada, enquanto manobrava com a bicicleta cuidadosamente, disse-me, sorrindo, “Bom dia!” e, surpreendido por raríssima espontaneidade, sorri e respondi. Sai daquele momento pensando que aquele sujeito, de quem nem me lembro o rosto e provavelmente nunca mais vá encontrar, estava de “bem com a vida”.                       
Continuei matutando alguns segundos, mas, enfim, tinha via disponível para pedalar e montei seguindo de volta para casa.                                      
Lembro apenas, que cheguei à conclusão apressada de que a vida tem muitas perspectivas ou janelas, depende de qual ou em qual se quer posicionar, e por quantas se passa até adotar uma “definitiva”’.                                     
Talvez, penso agora, ele não se tenha paralisado na contemplação da automatização das relações, tipo, robô. E, não se sabe se a janela escolhida é a permanente, se é que se pode afirmar isso, quando a rotação, a translação e tudo no mundo nos precede.