Outro dia alguém comentou sobre comer tomate
Inteiro como se come outras frutas
Contei que tinha costume na infância
Acompanhado de sal, comia com avidez
Hoje me perguntei porque não o faço mais
Lembrei que associa ao segundo paraíso perdido
Casa de infância que ainda hoje guardo a topologia
Lembro da distribuição e posição de cada árvore
Frutífera ou não, no dossel de algumas comi cítricas
E quando se lembra do pomar, se lembra da casa
De pai e mãe, dos irmãos, primos, avós e tios
Essa engenharia social que nos constrói emocionalmente
Lembro quando era criança de colo puxar os bigodes de pai
E ele nervoso, pedia pra mãe me tirar de seu colo
Mãe me pegava e dizia algo para não repetir o feito ou algo assim
Algumas vezes ainda engatinhando jogava filhotes de gato
Escada abaixo com minhas mãos e ela parecia infinita
Tempos depois, lembrada da situação, revisitei a casa
E constatei que era de três degraus, daí a estupefação
Constatação da idade aproximada e da maldade inata
Lembro de mãe lavando roupa ou ao pé do fogão
E eu sempre ao pé dela como se fosse seu sapato
Enfim, a penúltima descarga do eletricista, depois caçula
Deveria ser um pouco mais forte, intensa ou inquieta
Diversas vezes aproximava-me do cesto de roupas sujas
E vestia escondido algumas roupas amassadas de pai
Vasculhava o armário e admirava as outras, limpas
Ao pé do tanque, sentia a alegria de minha mãe
Que algumas vezes, percebia, usava um pouco mais
De vinho na sangria rústica gelada para aliviar o calor
De uma região quase desértica também de sentimentos
E o ovo da galinha lispectoriana parecia voar sem asas
Hoje sou uma besta como Honório que se emociona com laranjeiras
E com as uvas niágaras ganhas de presente em cesta de frutas,
Que as colhia sob as pereiras e acima no alto da copa de uma delas
A videira teimava em escalar desconhecendo os limites
Do parreiral e da cerca do vizinho que algumas vezes caia lá
Ainda não terminei de falar do pomar e minhas lágrimas
Banham o teclado negro escravo de meus devaneios
Tudo isso era pra lembrar da tortura natalina das lembranças pueris
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
domingo, 21 de dezembro de 2014
Admirável mundo
Estamos todos satisfeitos em sermos gama
Vozinhas estridentes repetem em coro
Trecho de diálogo do filme sobre obra de Huxley
Assim estamos satisfeitos com nossos somas
Em pílulas azuis, brancas, verdes
Sim temos uma panaceia delas ao gosto do freguês
Como você quer ver o mundo
Essa é a pergunta impressa no panegírico da ilusão
Vamos engolindo não apenas oralmente
Enquanto os balidos ecoam nos vales e planaltos
Os pastores beta e alfa comprazem-se com o rebanho
Às vezes dá-se a ilusão da liberdade nas datas festivas
Liberta-o no prado banhado pelo sol
Numa imagem idílica e pastoril do mundo rural
Repetimos gama, grama , gama, grama, gama
Nesse caso a do vizinho não é mais verde que a própria
Como diriam nossos colanizadores favoritos
Vozinhas estridentes repetem em coro
Trecho de diálogo do filme sobre obra de Huxley
Assim estamos satisfeitos com nossos somas
Em pílulas azuis, brancas, verdes
Sim temos uma panaceia delas ao gosto do freguês
Como você quer ver o mundo
Essa é a pergunta impressa no panegírico da ilusão
Vamos engolindo não apenas oralmente
Enquanto os balidos ecoam nos vales e planaltos
Os pastores beta e alfa comprazem-se com o rebanho
Às vezes dá-se a ilusão da liberdade nas datas festivas
Liberta-o no prado banhado pelo sol
Numa imagem idílica e pastoril do mundo rural
Repetimos gama, grama , gama, grama, gama
Nesse caso a do vizinho não é mais verde que a própria
Como diriam nossos colanizadores favoritos
sábado, 20 de dezembro de 2014
Gorjeio
Eu namoro todos os dias
Com as palavras e com o invisível
Eles vem não sei de onde, nem o porquê
Batem à minha porta devagar e educados
No princípio sempre formais
Depois com o tempo
Lá pelas tantas visitas frequentes
Tornam-se mais vorazes e audaciosos
Vão exigindo mais espaço no meu pensamento
E começam por instalarem-se como hóspedes
Até que num certo dia nasce um déspota
Raro e inédito no conhecimento humano
Que me chama para a porta do outro lado
Ele tem duas cabeças sobrepostas
Uma olha para frente, a outra para trás
O pescoço contorce-se entre falantes
O chamamento das sereias urbanas
Nas suas possantes naves terrestres
Cantam alto sua canção milenar aos ventos
A noite acolhe o imaginário e os deuses tortos
Desfilam arrogantes marcas nos capôs do capital
Com as palavras e com o invisível
Eles vem não sei de onde, nem o porquê
Batem à minha porta devagar e educados
No princípio sempre formais
Depois com o tempo
Lá pelas tantas visitas frequentes
Tornam-se mais vorazes e audaciosos
Vão exigindo mais espaço no meu pensamento
E começam por instalarem-se como hóspedes
Até que num certo dia nasce um déspota
Raro e inédito no conhecimento humano
Que me chama para a porta do outro lado
Ele tem duas cabeças sobrepostas
Uma olha para frente, a outra para trás
O pescoço contorce-se entre falantes
O chamamento das sereias urbanas
Nas suas possantes naves terrestres
Cantam alto sua canção milenar aos ventos
A noite acolhe o imaginário e os deuses tortos
Desfilam arrogantes marcas nos capôs do capital
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
Mortalha
Eu invejo os mortos que não se despedem
Que simplesmente são levados por tragédias
Eles não guardam nenhuma saudade
Provavelmente riem-se, se houver consciência
Que simplesmente são levados por tragédias
Eles não guardam nenhuma saudade
Provavelmente riem-se, se houver consciência
No pós-morte de tantas atribulações que em geral nós próprios causamos, eu invejo aqueles que se vão porque não precisam mais se preocupar com a futilidade da moda. Nem com as contas, nem com o que pensam de si, o que pensaram, o que desejaram e o que ignoraram nas noites longas da vida, tão privada daquele que se foi. Não, não sou suicida, nem coragem para isso tenho. Apenas invejo, porque queria que meus dias fossem mais curtos ainda do que realmente já são atualmente. Com poucas perspectivas de vida digna, não, não sou pedinte, nem tampouco desafortunado. Sou um número entre estatísticas, a minha atomização começou muito cedo. Mesmo fazendo parte de um grupo matemático-estatístico, sinto-me pertencer a lugar algum. Eu vou avançando, não sei para onde, muitas vezes me petrifico, sem reação. Eu fui, eu ia e pensava que vivia. Estou no tempo da recordação, minha e de outros, e mesmo elas, se apagam gradativamente de mim e do alheio. Isso é bom, porque não penso ser eterno, nem ser eternizado por nada que disse, fiz ou vivi. Uma vida em branco de semimorte me trai ultimamente, ser nada e ninguém ao mesmo tempo, exige esforço. Para continuar não sendo vou me anulando numa técnica consagrada por sábios, ao longo dos tempos, escrever apaga a consciência de si e do mundo, porque as letras, mortas como estão, não atraem mais nada e ninguém, exceto no âmbito comercial e político. Mas as palavras são fugazes, mesmo jogada aos ventos elas não nos comprazem mais. É a crise da vida que invoca a morte nos caminhos e desvios da consciência e do coma.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
Ruminante
Faz dias mastigo pensamentos cruéis
Fico entre o compartilhar ou implodir
Enfim, dilemas do mundo interno
Quando sem máscaras se manifesta
Porque ao fazê-lo estarei recriando
E se não existir, crio pela palavra, signo
E se não o fizer o que alterarei
Se antes nem mesmo existiu
Mesmo agora reitero ou penso
Ou divago faço ou não, ir ou voltar
A magia do mundo se abre na primeira luz
Que agride o cristalino do nascituro
Foi a primeira fresta da caverna
De lá para cá, muita pirotecnia no céu
Dessa vez não mais limite como muro azul
Apenas cúpula ótica facilmente transposta
Onde estiver meu pensamento ou silêncio
Às vezes calo, vejo sempre, nunca ouço
Fico entre o compartilhar ou implodir
Enfim, dilemas do mundo interno
Quando sem máscaras se manifesta
Porque ao fazê-lo estarei recriando
E se não existir, crio pela palavra, signo
E se não o fizer o que alterarei
Se antes nem mesmo existiu
Mesmo agora reitero ou penso
Ou divago faço ou não, ir ou voltar
A magia do mundo se abre na primeira luz
Que agride o cristalino do nascituro
Foi a primeira fresta da caverna
De lá para cá, muita pirotecnia no céu
Dessa vez não mais limite como muro azul
Apenas cúpula ótica facilmente transposta
Onde estiver meu pensamento ou silêncio
Às vezes calo, vejo sempre, nunca ouço
sábado, 6 de dezembro de 2014
Grutas no caminho
Quando penso na palavra gruta,
Sempre lembro a dos índios
Sem contar que não é comum
Sequer usual ou aceitável
Enfim, quando criança
Tudo se aceita, enfeita e eufemiza
Nasce-se de pé de couve ou se é trazido
No bico de uma cegonha forte e alegre
Que entrega na casa certa, de sua mãe
Assim, quando entro em minha gruta
É impossível não entrar no universo subjetivo
A gruta que abriga da luz, frio, calor e chuva
Que abriga e acalenta projetos, rebentos e concertos
A gruta também nasceu de um jardim, de lá vieram
Todos os talentos que nos acompanham, vitais,
Como a mineralização da rocha o é para a geologia
A morfologia das vozes que foram se afinando num Augusto
Colosso talento ou na voracidade dos Bobs com seus mundos próprios
Das tantas, Fernandas, Meires, Raquéis, Lucianas e Ricardos, bedéis
Da cultura que se amalgama numa Companhia de corpos, nômades em seu cansaço
Se agrupam em muitos coletivos, no jardim de Tharcila onde tudo germinou
A gruta saiu da crosta da terra e floresceu também em castelos e cursinhos
A gruta criou pernas e agora engatinha pelo mundo das paredes de giz, dos dry walls
A gruta agora se reconfigura num outro coletivo que abriga e se veste de mil aves dançando
E rasgando o céu, aterrissam à entrada da gruta com seus cantos e gorjeios orquestrados
Essa gruta tornou-se palco que se torna pequeno para a expectativa em torno dela, por isso dela muitos saíram
Às vezes passeiam na Augusta com as pimentas do crente andarilho que vai à meca dos mercados
Direitos, esquerdos, anjos tortos, perigosos, daqueles que deus desaconselhou a criar, todos saíram da gruta
Da garganta do mundo com todas as secreções minerais das estalactites e estalagmites, brancas, coloridas
Espadas que armam as vozes que ecoam da boca da gruta que se torna o lar dos poemas, corpos e cantos
Sempre lembro a dos índios
Sem contar que não é comum
Sequer usual ou aceitável
Enfim, quando criança
Tudo se aceita, enfeita e eufemiza
Nasce-se de pé de couve ou se é trazido
No bico de uma cegonha forte e alegre
Que entrega na casa certa, de sua mãe
Assim, quando entro em minha gruta
É impossível não entrar no universo subjetivo
A gruta que abriga da luz, frio, calor e chuva
Que abriga e acalenta projetos, rebentos e concertos
A gruta também nasceu de um jardim, de lá vieram
Todos os talentos que nos acompanham, vitais,
Como a mineralização da rocha o é para a geologia
A morfologia das vozes que foram se afinando num Augusto
Colosso talento ou na voracidade dos Bobs com seus mundos próprios
Das tantas, Fernandas, Meires, Raquéis, Lucianas e Ricardos, bedéis
Da cultura que se amalgama numa Companhia de corpos, nômades em seu cansaço
Se agrupam em muitos coletivos, no jardim de Tharcila onde tudo germinou
A gruta saiu da crosta da terra e floresceu também em castelos e cursinhos
A gruta criou pernas e agora engatinha pelo mundo das paredes de giz, dos dry walls
A gruta agora se reconfigura num outro coletivo que abriga e se veste de mil aves dançando
E rasgando o céu, aterrissam à entrada da gruta com seus cantos e gorjeios orquestrados
Essa gruta tornou-se palco que se torna pequeno para a expectativa em torno dela, por isso dela muitos saíram
Às vezes passeiam na Augusta com as pimentas do crente andarilho que vai à meca dos mercados
Direitos, esquerdos, anjos tortos, perigosos, daqueles que deus desaconselhou a criar, todos saíram da gruta
Da garganta do mundo com todas as secreções minerais das estalactites e estalagmites, brancas, coloridas
Espadas que armam as vozes que ecoam da boca da gruta que se torna o lar dos poemas, corpos e cantos
Assinar:
Postagens (Atom)