segunda-feira, 19 de junho de 2017

Lettere

Realmente, mo princípio era o verbo, era ele inerte até que começasse a lê-lo e então manifestar-se na realidade por meio de minha consciência, registro e classificação, assim muitas caixinhas foram se reunindo no escaninho. 
As palavras com sua imperiosidade sempre me fascinaram e capturaram, lembro-me refém da primeira mais longa que li em gibis, em épocas em que eram um pouco mais perigosos para o intelecto – inexpugnável. Pareceu naquele momento uma queima de fogos de artifício que aprisionou minha mente na sonoridade e na sensação de grandiosidade que ela transmitia na sua pronúncia e nas diversas articulações e movimentos que impunha aos órgãos fonadores e no desenho fonoaudiológico dos órgãos envolvidos na produção do fonema.
É claro que o menino não tinha a teoria, a leitura é do homem, mas o conhecimento mesmo não elucidado à época, era patente e potente de contaminação de uma doença precária e rara e ainda sem medicamento, se por um lado ser prisioneiro de manias, modos, estilos e toda a parafernália que os gostos e desgostos inerentes sucumbem em cada ser humano, a minha prisão é essa e sou meu aparente carcereiro, forro minha mente de livros imaginários, porque apenas conceitos que inauguram viagens, leituras e depósitos em moedas de valores próprios e intrínsecos a todo ser humano, como ando, vejo, sinto, respiro e pontuo com cada vírgula da vida.
Hoje, quando revisito a palavra décadas depois ela parece tão perigosa quanto irônica, a negação afirma a realidade e vice-versa num fluxo que não se pode definir as forças que o conduz, senão por meio de um olhar mais apurado, que no momento não detenho em meu bolso de viagem.
As palavras são assim, nos alijam do próprio sentido da vida, porque possuem significados múltiplos, portais de navegação para uma viagem sem rota escrita.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Screenshot

E se eu não largar o velho, como o íntimo ou o original pode vir? Não, não estava pensando em Jesus, Allah, nem tampouco em qualquer deus ou divindade. Estava pensando em como poderia parar de repetir tantas verdades perfeitas, todas sem exceção, donas absolutas da verdade. Aquelas que nos deparamos repetindo mentalmente, sem sequer questionar, como papagaios que têm uma longa memória para poucas sentenças.

Outro dia um desconhecido, no meio da calçada, enquanto manobrava com a bicicleta cuidadosamente, disse-me, sorrindo, “Bom dia!” e, surpreendido por raríssima espontaneidade, sorri e respondi. Sai daquele momento pensando que aquele sujeito, de quem nem me lembro o rosto e provavelmente nunca mais vá encontrar, estava de “bem com a vida”.                       
Continuei matutando alguns segundos, mas, enfim, tinha via disponível para pedalar e montei seguindo de volta para casa.                                      
Lembro apenas, que cheguei à conclusão apressada de que a vida tem muitas perspectivas ou janelas, depende de qual ou em qual se quer posicionar, e por quantas se passa até adotar uma “definitiva”’.                                     
Talvez, penso agora, ele não se tenha paralisado na contemplação da automatização das relações, tipo, robô. E, não se sabe se a janela escolhida é a permanente, se é que se pode afirmar isso, quando a rotação, a translação e tudo no mundo nos precede.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Vida

              Seja mais cachorro porque humano não dá para ser mais com seus costumeiros erros, que dizem constituir a meta para o acerto. O cachorro é simples, porque simplesmente é o que é – um quadrúpede carinhoso, obediente à sua natureza, que rosna, late, balança a cauda, lambe suas mãos afetuosamente e se não se desviar atinge o rosto e a boca.
              Acompanha-nos pela longa história da humanidade, apascenta gado, late quando chega algum desconhecido para alertá-lo e aos seus próximos, cuida da casa, companhia para crianças e idosos, sem ele nossa vida seria muito mais árida.
              Sempre pronto para gracejos e travessuras com qualquer que lhe dê atenção, a aparente carência nos une com as necessidades recíprocas de atenção inerente a todo mamífero. Embora carente de atenção é descolado, aos poucos meses de vida torna-se independente da mãe, está sempre buscando atenção como forma de aprovação que tão bem conhecemos.
              Grandes, pequenos, lisos ou peludos, sua graça e porte enche de orgulho qualquer ser com o mínimo de sensibilidade mesmo os não mamíferos. Lembro-me de uma ocasião em que passeava no parque com um de meus cães, mestiço de Golden Retriever com vira-latas, em que um dos bem-te-vis sobrevoava a cabeça dele em várias manobras e Scooby, esse era seu nome, latia em busca de afugentá-lo, que não entendia que era uma brincadeira do pássaro.
              Outra em que oferecia alimento a um morador de rua que estava dormindo, o cão percebeu minha presença e latiu muito até que o dono acordasse, pois não sabia o que queria ao me aproximar. Ele nos protege não apenas dos perigos inerentes a cada situação, mas o mais fiel companheiro, nos resguarda de nossa genética solidão no mundo.
              O meu primeiro cachorro era enorme, maior que eu, com menos de cinco anos de idade, seu nome era Boca Negra, era tão grande que sua pata era do tamanho da mão de meu pai. Fila Brasileiro, ninguém entrava em nossa casa ou sequer avançava além do portão sem que fosse intimidado pela sua presença, morreu envenenado por algum monstro bípede.
              Tinha a Tirita e a Teteia, duas cadelinhas malhadas sem raça definida, a segunda filha da primeira,  seguiram a linhagem dos cães domésticos, depois houve um vácuo na continuidade de suas presenças em casa. Talvez representando a lacuna que se ostentava vazia na vida familiar ou talvez somente a própria.
              Sabem de nossas alegrias e tristezas e sempre tentam nos insuflar com seu ânimo inesgotável, sua energia inexaurível e com seus meigos sorrisos vistos não somente no balanço da cauda, mas em seus olhos tranquilos e alegres. Sempre úmidos e viçosos em busca de nossa atenção para que possam nos alegrar ou simplesmente redobrar o que já se sente nesse quesito.

              Poderia escrever laudas, páginas e volumes que jamais esgotaria a capacidade de descrever as qualidades e benefícios desse único e inesquecível companheiro, pois nenhum esqueci até hoje. Quero ser mais, mais vira-latas, mais Golden, mais animal no sentido mais puro desse ser encantador.