quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Natal

Outro dia alguém comentou sobre comer tomate
Inteiro como se come outras frutas
Contei que tinha costume na infância
Acompanhado de sal, comia com avidez
Hoje me perguntei porque não o faço mais
Lembrei que associa ao segundo paraíso perdido
Casa de infância que ainda hoje guardo a topologia
Lembro da distribuição e posição de cada árvore
Frutífera ou não, no dossel de algumas comi cítricas
E quando se lembra do pomar, se lembra da casa
De pai e mãe, dos irmãos, primos, avós e tios
Essa engenharia social que nos constrói emocionalmente
Lembro quando era criança de colo puxar os bigodes de pai
E ele nervoso, pedia pra mãe me tirar de seu colo
Mãe me pegava e dizia algo para não repetir o feito ou algo assim
Algumas vezes ainda engatinhando jogava filhotes de gato
Escada abaixo com minhas mãos e ela parecia infinita
Tempos depois, lembrada da situação, revisitei a casa
E constatei que era de três degraus, daí a estupefação
Constatação da idade aproximada e da maldade inata
Lembro de mãe lavando roupa ou ao pé do fogão
E eu sempre ao pé dela como se fosse seu sapato
Enfim, a penúltima descarga do eletricista, depois caçula
Deveria ser um pouco mais forte,  intensa ou inquieta
Diversas vezes aproximava-me do cesto de roupas sujas
E vestia escondido algumas roupas amassadas de pai
Vasculhava o armário e admirava as outras, limpas
Ao pé do tanque, sentia a alegria de minha mãe
Que algumas vezes, percebia, usava um pouco mais
De vinho na sangria rústica gelada para aliviar o calor
De uma região quase desértica também de sentimentos
E o ovo da galinha lispectoriana parecia voar sem asas
Hoje sou uma besta como Honório que se emociona com laranjeiras
E com as uvas niágaras ganhas de presente em cesta de frutas,
Que as colhia sob as pereiras e acima no alto da copa de uma delas
A videira teimava em escalar desconhecendo os limites
Do parreiral e da cerca do vizinho que algumas vezes caia lá
Ainda não terminei de falar do pomar e minhas lágrimas
Banham o teclado negro escravo de meus devaneios
Tudo isso era pra lembrar da tortura natalina das lembranças pueris

domingo, 21 de dezembro de 2014

Admirável mundo

Estamos todos satisfeitos em sermos gama
Vozinhas estridentes repetem em coro
Trecho de diálogo do filme sobre obra de Huxley
Assim estamos satisfeitos com nossos somas
Em pílulas azuis, brancas, verdes
Sim temos uma  panaceia delas ao gosto do freguês
Como você quer ver o mundo
Essa é a pergunta impressa no panegírico da ilusão
Vamos engolindo não apenas oralmente
Enquanto os balidos ecoam nos vales e planaltos
Os pastores beta e alfa comprazem-se com o rebanho
Às vezes dá-se a ilusão da liberdade nas datas festivas
Liberta-o no prado banhado pelo sol
Numa imagem idílica e pastoril do mundo rural
Repetimos gama, grama , gama, grama, gama
Nesse caso a do vizinho não é mais verde que a própria
Como diriam nossos colanizadores favoritos

sábado, 20 de dezembro de 2014

Gorjeio

Eu namoro todos os dias
Com as palavras e com o invisível
Eles vem não sei de onde, nem o porquê
Batem à minha porta devagar e educados
No princípio sempre formais
Depois com o tempo
Lá pelas tantas visitas frequentes
Tornam-se mais vorazes e audaciosos
Vão exigindo mais espaço no meu pensamento
E começam por instalarem-se como hóspedes
Até que num certo dia nasce um déspota
Raro e inédito no conhecimento humano
Que me chama para a porta do outro lado
Ele tem duas cabeças sobrepostas
Uma olha para frente, a outra para trás
O pescoço contorce-se entre falantes
O chamamento das sereias urbanas
Nas suas possantes naves terrestres
Cantam alto sua canção milenar aos ventos
A noite acolhe o imaginário e os deuses tortos
Desfilam arrogantes marcas nos capôs do capital

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Mortalha

Eu invejo os mortos que não se despedem
Que simplesmente são levados por tragédias
Eles não guardam nenhuma saudade
Provavelmente riem-se, se houver consciência


No pós-morte de tantas atribulações que em geral nós próprios causamos, eu invejo aqueles que se vão porque não precisam mais se preocupar com a futilidade da moda. Nem com as contas, nem com o que pensam de si, o que pensaram, o que desejaram e o que ignoraram nas noites longas da vida, tão privada daquele que se foi. Não, não sou suicida, nem coragem para isso tenho. Apenas invejo, porque queria que meus dias fossem mais curtos ainda do que realmente já são atualmente. Com poucas perspectivas de vida digna, não, não sou pedinte, nem tampouco desafortunado. Sou um número entre estatísticas, a minha atomização começou muito cedo. Mesmo fazendo parte de um grupo matemático-estatístico, sinto-me pertencer a lugar algum. Eu vou avançando, não sei para onde, muitas vezes me petrifico, sem reação. Eu fui, eu ia e pensava que vivia. Estou no tempo da recordação, minha e de outros, e mesmo elas, se apagam gradativamente de mim e do alheio. Isso é bom, porque não penso ser eterno, nem ser eternizado por nada que disse, fiz ou vivi. Uma vida em branco de semimorte me trai ultimamente, ser nada e ninguém ao mesmo tempo, exige esforço. Para continuar não sendo vou me anulando numa técnica consagrada por sábios, ao longo dos tempos, escrever apaga a consciência de si e do mundo, porque as letras, mortas como estão,  não atraem mais nada e ninguém, exceto no âmbito comercial e político. Mas as palavras são fugazes, mesmo jogada aos ventos elas não nos comprazem mais. É a crise da vida que invoca a morte nos caminhos e desvios  da consciência e do coma.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Ruminante

Faz dias mastigo pensamentos cruéis
Fico entre o compartilhar ou implodir
Enfim, dilemas do mundo interno
Quando sem máscaras se manifesta
Porque ao fazê-lo estarei recriando
E se não existir, crio pela palavra, signo
E se não o fizer o que alterarei
Se antes nem mesmo existiu
Mesmo agora reitero ou penso
Ou divago faço ou não,  ir ou voltar
A magia do mundo se abre na primeira luz
Que agride o cristalino do nascituro
Foi a primeira fresta da caverna
De lá para cá, muita pirotecnia no céu
Dessa vez não mais limite como muro azul
Apenas cúpula ótica facilmente transposta
Onde estiver meu pensamento ou silêncio
Às vezes calo, vejo sempre, nunca ouço

sábado, 6 de dezembro de 2014

Grutas no caminho

Quando penso na palavra gruta,
Sempre lembro a dos índios
Sem contar que não é comum
Sequer usual ou aceitável
Enfim, quando criança
Tudo se aceita, enfeita e eufemiza
Nasce-se de pé de couve ou se é trazido
No bico de uma cegonha forte e alegre
Que entrega na casa certa, de sua mãe
Assim, quando entro em minha gruta
É impossível não entrar no universo subjetivo
A gruta que abriga da luz, frio, calor e chuva
Que abriga e acalenta projetos, rebentos e concertos
A gruta também nasceu de um jardim, de lá vieram
Todos os talentos que nos acompanham, vitais,
Como a mineralização da rocha o é para a geologia
A morfologia das vozes que foram se afinando num Augusto
Colosso talento ou na voracidade dos Bobs com seus mundos próprios
Das tantas, Fernandas, Meires, Raquéis, Lucianas e Ricardos, bedéis
Da cultura que se amalgama numa Companhia de corpos, nômades em seu cansaço
Se agrupam em muitos coletivos, no jardim de Tharcila onde tudo germinou
A gruta saiu da crosta da terra e floresceu também em castelos e cursinhos
A gruta criou pernas e agora engatinha pelo mundo das paredes de giz, dos dry walls
A gruta agora se reconfigura num outro coletivo que abriga e se veste de mil aves dançando
E rasgando o céu, aterrissam à entrada da gruta com seus cantos e gorjeios orquestrados
Essa gruta tornou-se palco que se torna pequeno para a expectativa em torno dela, por isso dela muitos saíram
Às vezes passeiam na Augusta com as pimentas do crente andarilho que vai à meca dos mercados
Direitos, esquerdos, anjos tortos, perigosos, daqueles que deus desaconselhou a criar, todos saíram da gruta
Da garganta do mundo com todas as secreções minerais das estalactites e estalagmites, brancas, coloridas
Espadas que armam as vozes que ecoam da boca da gruta que se torna o lar dos poemas, corpos e cantos

domingo, 30 de novembro de 2014

O silêncio das palavras



Sempre que penso em palavras lembro dos distúrbios noturnos e do sono, da revirada no leito, assustado, sob o rajar de sons desagradáveis ou apenas o silêncio da dor lancinante nos canais anteriores ao tímpano, creio. Lembro que chorava muito e meu canal do ouvido era preenchido com toda a sorte de experimentos quentes ou frios para alívio da dor que me consumia e nada a fazia parar. As noites eram eternas àquela época, talvez por serem assinaladas pelo sofrimento.
Nasci sob o signo da dor minha e de outro, como todo ser humano, mas a dor do existir, pensei que aos dez anos, com a cirurgia corretora da otite ela cessasse, enganei-me mais uma vez, porque ao estancar a dor, consegui pensar em algo diferente da dor física e ative-me na da alma, que percebi incessante.
Percebi a dor, a ganância e a superficialidade das relações e a dor física foi inscrita na alma como um costume antigo ou canção de ninar impregnada dos medos mais ancestrais da humanidade. Ela se tornou escola, desafio e modo de vida porque a ela me afeiçoara como a um amor doentio que se sabe fazer mal a si mesmo, mas que o processo de libertação engatinha experimentando a sensação do deslocamento espacial sob outro ângulo e carregado da capacidade volitiva mais pueril e espontânea do segundo.
O minuto próximo parece eterno e longínquo, o agora se estende cálido e  tépido em meus braços, como os primeiros sons da madrugada com os roncos, frenagens e acelerações nervosas nas madrugadas sulistas impregnadas pela poluição das fábricas fumageiras.

Mundo

Eu acordei o mundo
Ele ficou assustado
Tão habituado estava
Ao seu sono profundo
O mundo era meu quintal
Depois expandi uns muros
Adiante mais um bairro
Um dia atingi a cidade
Assim avancei mais alfândegas
Atravessei pequenas fronteiras
Quando na verdade
A única que deveria ultrapassar
Estava dentro de mim
Esse é o mundo abalado
Atingido na profundidade de sua crosta
Não há tanto magma para jorrar
Há a fonte pulsante e assustadora
Pronta para sintonizar em ondas no ar
Esse é o mundo que conheço
Mundo limitado, mundo mudo
Nada a comunicar, só a mostrar
Estou aprendendo a ouvir
Naquilo que vejo ao redor
E ver o som dos movimentos
Tento falar com meu silêncio
Quase nunca consigo
Porque a verborragia
Atinge no subterrâneo
De meu pequeno mundo


Gaiola

        Estou engaiolado
Naquela que mesmo criei
Fui construindo-a
Desejo por capricho
Necessidades vazias
Futilidades plenas
Gostos duvidosos
Conheci Maria
Depois João
Ouvi conversas bestas
Que eu mesmo me bestifiquei
Para não destoar do meio
Fui usando a veste
A pele do carneiro
Mas via a cauda do lobo
A cauda do lobo-homem
Que devora o menino
Que seria o pai do homem

Conto do instante

Os fatos esquecem-se dos atos que proporcionaram a ação invisível daquilo que se manifesta nas aglomerações de imagens que percorrem a superfície da rasa memória. Canto a música que acordou em mim, depois de alguns assovios magros e insistentes, compus aquilo que pensei ser minha canção, pus arranjos aqui e ali, nem sei o que fiz e o porquê. Ela veio embriagada, visitou meus lábios e minhas cordas, deixou umas notas em minha lembrança que não consigo apagar e foi embora, talvez tenha ido expressar-se em instrumento que a conheça. A música errou endereço, já que nem mesmo sei escrevê-la em cifras ou decifrá-la, foi um prazeroso erro do destino que às vezes entrega presentes inusitados. A embalagem de um dos últimos foi aberta cuidadosamente, foram retirados os laços que envolviam o presente, vindo do desconhecido, soaram aos meus ouvidos as primeiras notas que não canso de repetir, nas quais acrescento novos tons, ritmos e tempos. A viagem é acompanhada por elefantes brancos que caminham silenciosos em grupo por um deserto humano, em que as pessoas usam avatares estranhos ao tempo, um sambito extraviado desfila pela rua dos séculos. Minha memória acorda de tempos ermos em que o vento ensaiava tons e ruídos misturados aos cantos das aves e outros animais que estavam na planície e que depois foram para o vale.

sábado, 25 de outubro de 2014

Parole

As palavras, sempre as palavras, outro dia me vi embriagado delas e não sabia o que fazer para curar a ressaca. Não sei por onde começo se por media res ou se no princípio era apenas o verbo, é na verdade por onde tudo começou, onde o espírito que plasma a palavra e portanto a existência. As primeiras palavras que capturaram minha atenção e assim em vez de capturá-las e apreendê-las, tornei-me escravo e depois, finalmente, servo, de quem nunca mais me desvencilhei. Passados esses segundos inciais da mente perturbada pelos holofotes do mundo, caminho pelos revezes dos significados, da semântica, dos antônimos, anônimos, sinônimos e outras nunces que ela possa ou venha a ter, ela, a palavra. Palavra que dignifica, embeleza, revela, reza, cala, canta, faz de conta que encanta, mas nos distrai de um próximo canto, conto, canso de tantas palavras. Elas vêm aos milhões e se instalam como nuvens de gafanhotos na minha mente cansada ao ponto de estar perturbada. Palavras, vêm em saraivadas, em bombas, atentados, em cessares, em césares e em enganares, em falsas tréguas, sempre palavras, ao vento no Oriente, em Bel-in, com tantas câmeras quebradas, pequena amostra do mundo fictício dos 1001 tormentos feitos pelo tempo, em Gaza, o mundo de lá está cheio delas, palavras demais. Vamos exportar palavras para o Oriente, para a América e Israel, não, não palavras para essas associações ditas nações. Passaremos ao longo desses dissabores e vergonhas, das palavras, as que prometem, acorrentam, seduzem, chutam para longe o hoje, futuro, empurra a palavra – amanhã. Palavra que lavra a terra seca de nossos corações que cala, fere, mente, trai, acalenta e se contenta com o som ao fundo de um sorriso, novamente palavra conceito, trejeito. Uma nuvem de palavras que se instala na lavoura de meus pseudo pensamentos, signos, mensagens, guiados, também, por palavras, fonemas, morfemas, dilemas, sempre palavras. As não ditas pelas Sereias que pulavam dos motores que guiavam os servos para a indústria de nosso louvor, seus roncos, frenadas e aceleramentos instalaram-se como primeiros e únicos fonemas na minha mente, palavras, palavras enuviadas em ruídos que me seduzem, palavras, motores, freios, oxigênio, hidrogênio, sobre tudo nitrogênio com estrogênio, alquimia da morte nas palavras. Palavras amordaçadoras, parla o dice, o gênio dos loucos onde se faz um MIX de tantas e um fazer e desfazer da mortalha de Penélope, feita de palavras e desfiadas por dedos.

domingo, 19 de outubro de 2014

Mudo

Eu vejo os prédios em perspectiva
Caiados de cinza e branco
Ao fundo a noite é rosada
Os tempos mudam
Mudo vejo o mundo mudar
E ouvidos moucos que passam por lá
Eu caminho pela noite nu
De pensamentos e negras aspirações
Mudo passo pelo mundo
Queria quebrar o silêncio da mudez
Que me amordaça com palavras
A última instância que me assombra




Guarani



O mundo batia à minha porta
Parecia com pressa
Em anunciar nova velha novidade
Travestiu-a de tal forma
Quase irreconhecível estava
Mas depois de tantas edições
Nem tantos holofotes
Devido a multiplicidade deles
Nessa constelação de tantos egos
Fico feliz em ser grão de poeira


Magus



Eu vi a magia se instalar em minha frente
enquanto passeava com meu cão
entre a mata  do parque e a trilha.
De repente, uma brisa suave soprou
e parece ter trazido algum som que despertou
minha visão para o cantar das folhas
que se tornavam pétalas na aleia do parque,
parei por um momento e congelei a cena em meu cristalino,
as pétalas-folhas, disputavam espaço entre si às dezenas,
centenas e milhares, no angulo de 180 graus,
que meu olho não conseguia registrar a coreografia viva
do universo em sua totalidade,
embriaguei-me e perdi os sentidos
e me deixei levar e anular silencioso nas minhas indagações,
preocupações medíocres e comezinhas,
deixei a chuva de folhas banhar-me na sua totalidade,
enquanto ouvia com olhos o respiro do mundo na minha frente.

Mundo

Eu acordei o mundo
Ele ficou assustado
Tão habituado estava
Ao seu sono profundo
O mundo era meu quintal
Depois expandi uns muros
Adiante mais um bairro
Um dia atingi a cidade
Assim avancei mais alfândegas
Atravessei pequenas fronteiras
Quando na verdade
A única que deveria ultrapassar
Estava dentro de mim
Esse é o mundo abalado
Atingido na profundidade de sua crosta
Não há tanto magma para jorrar
Há a fonte pulsante e assustadora
Pronta para sintonizar em ondas no ar
Esse é o mundo que conheço
Mundo limitado, mundo mudo
Nada a comunicar, só a mostrar
Estou aprendendo a ouvir
Naquilo que vejo ao redor
E ver o som dos movimentos
Tento falar com meu silêncio
Quase nunca consigo
Porque a verborragia
Atinge no subterrâneo
De meu pequeno mundo


Lua



Hoje eu vi a lua 
Lá pelas cinco horas da manhã
Fantástico ver isso ao acordar 
Só que ela não era azulada 
Era clara de um amarelo pálido 
Despedindo-se da noitada que passou fora
Talvez estivesse cansada de ficar ali
Por doze horas, exposta
Como mercadoria esquecida
Na gôndola de alguma loja
A lua se aborreceu com a indiferença
E não bastou somente o meu olhar
Humilhada ela retirou-se lenta 
Quase sem força
Ela foi partindo na curva do horizonte

Observada através da janela branca

Morte

Me desculpe morte
Nem a vi passar
Estava ocupado em viver
Você que me visitou
Tantas vezes e a hospedei
Acolhi-a e muitas vezes chamei
Me desculpa morte
Pela pouca atenção que lhe dou
Sei que me espreita
Todos os dias de minha vida
Outras quis fixar residência
Em minha mente e corpo
Me desculpa morte
Pela pouca atenção recebida
Continuo tão obstinado em viver
Que muitas vezes lhe esqueci
Me desculpa morte
Você tem tantas amizades por aí
Que a falta da minha
Não vai lhe fazer sofrer
Me desculpa morte
Por fazê-la esperar tanto
Pelos momentos de ócio dados a ti
Me desculpa morte
Mas sei que um dia a gente se encontra
Teremos uma breve conversa
E cultivaremos nosso eterno romance
Por tantas vezes interrompido
Não tenha ciúme da vida
Porque sempre lhe preferi
Me desculpa morte
Agora tenho que ir
Minha doce amante vida
Está chamando para eu sair
Não tema por mim
Porque desde que nasci
Sei para onde devo ir
Matar todos os dias
Meus pensamentos sombrios

sábado, 18 de outubro de 2014


Guaranizando


Clamo pela felicidade
Simples de cada dia
Sim sou autista
Artista de mim mesmo
Enquanto humano acordei
Ousei pegar a tocha
Disseram ser do conhecimento
Não avisaram das chamuscadas
Que seriam deixadas no caminho
Apesar do facho de luz
Eu bebo do fogo e da água
Porque sou mistério
Transparente e óbvio
Contraditório, humano
Animal como outro
Rastejo e sublimo
Levito como a pluma
Aquela levada porque leve
Pelas correntes da vida
Nasci assim, guarani


Sergio Guarani

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Ratos e histórias

Às vezes eu lembro
Outras esqueço
Em algumas decoro
As histórias que passam por aí
Dentro de minha cabeça
E como não gosto de carregar anotação
As palavras vão ficando perdidas
Pelos caminhos e descaminhos que rodo
Procura-se palavras esquecidas sobre o viaduto
Aquelas que rocei na rampa da 77 até a São João
O posto me agrediu na esquina com a sua luz
Os ratos passeiam tranquilos nas copas das árvores
Elas fazem a ponte para a cobertura do prédio
Assim, em trajes de gala eles passeiam na madrugada de outono
Solenes e donos de si, conscientes que haja o que houver
Sempre estarão por aqui lembrando aos transeuntes com o barulho das folhas





Pássaro

Às vezes sinto a paz
Dos pássaros em revoada
Que do alto levitam e planam
A pluma não conhece fim
Solta no céu está levitando
Como a rara beleza inefável
Voo, arrasto e flutuação
Vai, cai, sobe e se esvai
Nesse balé invisível da vida
O único lugar no auditório
Ainda está vazio
Caminho em minha própria estreia
O medo me habita
Porque decidi habitar o escuro


Sergio Guarani  06.10.14