Realmente, mo princípio era o verbo, era ele inerte até que começasse a lê-lo e então manifestar-se na realidade por meio de minha consciência, registro e classificação, assim muitas caixinhas foram se reunindo no escaninho.
As palavras com sua imperiosidade sempre me fascinaram e capturaram, lembro-me refém da primeira mais longa que li em gibis, em épocas em que eram um pouco mais perigosos para o intelecto – inexpugnável. Pareceu naquele momento uma queima de fogos de artifício que aprisionou minha mente na sonoridade e na sensação de grandiosidade que ela transmitia na sua pronúncia e nas diversas articulações e movimentos que impunha aos órgãos fonadores e no desenho fonoaudiológico dos órgãos envolvidos na produção do fonema.
É claro que o menino não tinha a teoria, a leitura é do homem, mas o conhecimento mesmo não elucidado à época, era patente e potente de contaminação de uma doença precária e rara e ainda sem medicamento, se por um lado ser prisioneiro de manias, modos, estilos e toda a parafernália que os gostos e desgostos inerentes sucumbem em cada ser humano, a minha prisão é essa e sou meu aparente carcereiro, forro minha mente de livros imaginários, porque apenas conceitos que inauguram viagens, leituras e depósitos em moedas de valores próprios e intrínsecos a todo ser humano, como ando, vejo, sinto, respiro e pontuo com cada vírgula da vida.
Hoje, quando revisito a palavra décadas depois ela parece tão perigosa quanto irônica, a negação afirma a realidade e vice-versa num fluxo que não se pode definir as forças que o conduz, senão por meio de um olhar mais apurado, que no momento não detenho em meu bolso de viagem.
As palavras são assim, nos alijam do próprio sentido da vida, porque possuem significados múltiplos, portais de navegação para uma viagem sem rota escrita.
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