domingo, 30 de novembro de 2014
Conto do instante
Os fatos esquecem-se dos atos que proporcionaram a ação
invisível daquilo que se manifesta nas aglomerações de imagens que
percorrem a superfície da rasa memória. Canto a música que acordou
em mim, depois de alguns assovios magros e insistentes, compus aquilo
que pensei ser minha canção, pus arranjos aqui e ali, nem sei o que
fiz e o porquê. Ela veio embriagada, visitou meus lábios e minhas
cordas, deixou umas notas em minha lembrança que não consigo apagar
e foi embora, talvez tenha ido expressar-se em instrumento que a
conheça. A música errou endereço, já que nem mesmo sei escrevê-la
em cifras ou decifrá-la, foi um prazeroso erro do destino que às
vezes entrega presentes inusitados. A embalagem de um dos últimos
foi aberta cuidadosamente, foram retirados os laços que envolviam o
presente, vindo do desconhecido, soaram aos meus ouvidos as primeiras
notas que não canso de repetir, nas quais acrescento novos tons,
ritmos e tempos. A viagem é acompanhada por elefantes brancos que
caminham silenciosos em grupo por um deserto humano, em que as
pessoas usam avatares estranhos ao tempo, um sambito extraviado
desfila pela rua dos séculos. Minha memória acorda de tempos ermos
em que o vento ensaiava tons e ruídos misturados aos cantos das aves
e outros animais que estavam na planície e que depois foram para o
vale.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário