domingo, 30 de novembro de 2014

O silêncio das palavras



Sempre que penso em palavras lembro dos distúrbios noturnos e do sono, da revirada no leito, assustado, sob o rajar de sons desagradáveis ou apenas o silêncio da dor lancinante nos canais anteriores ao tímpano, creio. Lembro que chorava muito e meu canal do ouvido era preenchido com toda a sorte de experimentos quentes ou frios para alívio da dor que me consumia e nada a fazia parar. As noites eram eternas àquela época, talvez por serem assinaladas pelo sofrimento.
Nasci sob o signo da dor minha e de outro, como todo ser humano, mas a dor do existir, pensei que aos dez anos, com a cirurgia corretora da otite ela cessasse, enganei-me mais uma vez, porque ao estancar a dor, consegui pensar em algo diferente da dor física e ative-me na da alma, que percebi incessante.
Percebi a dor, a ganância e a superficialidade das relações e a dor física foi inscrita na alma como um costume antigo ou canção de ninar impregnada dos medos mais ancestrais da humanidade. Ela se tornou escola, desafio e modo de vida porque a ela me afeiçoara como a um amor doentio que se sabe fazer mal a si mesmo, mas que o processo de libertação engatinha experimentando a sensação do deslocamento espacial sob outro ângulo e carregado da capacidade volitiva mais pueril e espontânea do segundo.
O minuto próximo parece eterno e longínquo, o agora se estende cálido e  tépido em meus braços, como os primeiros sons da madrugada com os roncos, frenagens e acelerações nervosas nas madrugadas sulistas impregnadas pela poluição das fábricas fumageiras.

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