sábado, 25 de outubro de 2014
Parole
As palavras, sempre as palavras, outro dia me vi embriagado delas e não sabia o que fazer para curar a ressaca. Não sei por onde começo se por media res ou se no princípio era apenas o verbo, é na verdade por onde tudo começou, onde o espírito que plasma a palavra e portanto a existência. As primeiras palavras que capturaram minha atenção e assim em vez de capturá-las e apreendê-las, tornei-me escravo e depois, finalmente, servo, de quem nunca mais me desvencilhei. Passados esses segundos inciais da mente perturbada pelos holofotes do mundo, caminho pelos revezes dos significados, da semântica, dos antônimos, anônimos, sinônimos e outras nunces que ela possa ou venha a ter, ela, a palavra. Palavra que dignifica, embeleza, revela, reza, cala, canta, faz de conta que encanta, mas nos distrai de um próximo canto, conto, canso de tantas palavras. Elas vêm aos milhões e se instalam como nuvens de gafanhotos na minha mente cansada ao ponto de estar perturbada. Palavras, vêm em saraivadas, em bombas, atentados, em cessares, em césares e em enganares, em falsas tréguas, sempre palavras, ao vento no Oriente, em Bel-in, com tantas câmeras quebradas, pequena amostra do mundo fictício dos 1001 tormentos feitos pelo tempo, em Gaza, o mundo de lá está cheio delas, palavras demais. Vamos exportar palavras para o Oriente, para a América e Israel, não, não palavras para essas associações ditas nações. Passaremos ao longo desses dissabores e vergonhas, das palavras, as que prometem, acorrentam, seduzem, chutam para longe o hoje, futuro, empurra a palavra – amanhã. Palavra que lavra a terra seca de nossos corações que cala, fere, mente, trai, acalenta e se contenta com o som ao fundo de um sorriso, novamente palavra conceito, trejeito. Uma nuvem de palavras que se instala na lavoura de meus pseudo pensamentos, signos, mensagens, guiados, também, por palavras, fonemas, morfemas, dilemas, sempre palavras. As não ditas pelas Sereias que pulavam dos motores que guiavam os servos para a indústria de nosso louvor, seus roncos, frenadas e aceleramentos instalaram-se como primeiros e únicos fonemas na minha mente, palavras, palavras enuviadas em ruídos que me seduzem, palavras, motores, freios, oxigênio, hidrogênio, sobre tudo nitrogênio com estrogênio, alquimia da morte nas palavras. Palavras amordaçadoras, parla o dice, o gênio dos loucos onde se faz um MIX de tantas e um fazer e desfazer da mortalha de Penélope, feita de palavras e desfiadas por dedos.
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