Que simplesmente são levados por tragédias
Eles não guardam nenhuma saudade
Provavelmente riem-se, se houver consciência
No pós-morte de tantas atribulações que em geral nós próprios causamos, eu invejo aqueles que se vão porque não precisam mais se preocupar com a futilidade da moda. Nem com as contas, nem com o que pensam de si, o que pensaram, o que desejaram e o que ignoraram nas noites longas da vida, tão privada daquele que se foi. Não, não sou suicida, nem coragem para isso tenho. Apenas invejo, porque queria que meus dias fossem mais curtos ainda do que realmente já são atualmente. Com poucas perspectivas de vida digna, não, não sou pedinte, nem tampouco desafortunado. Sou um número entre estatísticas, a minha atomização começou muito cedo. Mesmo fazendo parte de um grupo matemático-estatístico, sinto-me pertencer a lugar algum. Eu vou avançando, não sei para onde, muitas vezes me petrifico, sem reação. Eu fui, eu ia e pensava que vivia. Estou no tempo da recordação, minha e de outros, e mesmo elas, se apagam gradativamente de mim e do alheio. Isso é bom, porque não penso ser eterno, nem ser eternizado por nada que disse, fiz ou vivi. Uma vida em branco de semimorte me trai ultimamente, ser nada e ninguém ao mesmo tempo, exige esforço. Para continuar não sendo vou me anulando numa técnica consagrada por sábios, ao longo dos tempos, escrever apaga a consciência de si e do mundo, porque as letras, mortas como estão, não atraem mais nada e ninguém, exceto no âmbito comercial e político. Mas as palavras são fugazes, mesmo jogada aos ventos elas não nos comprazem mais. É a crise da vida que invoca a morte nos caminhos e desvios da consciência e do coma.
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