sábado, 20 de dezembro de 2014

Gorjeio

Eu namoro todos os dias
Com as palavras e com o invisível
Eles vem não sei de onde, nem o porquê
Batem à minha porta devagar e educados
No princípio sempre formais
Depois com o tempo
Lá pelas tantas visitas frequentes
Tornam-se mais vorazes e audaciosos
Vão exigindo mais espaço no meu pensamento
E começam por instalarem-se como hóspedes
Até que num certo dia nasce um déspota
Raro e inédito no conhecimento humano
Que me chama para a porta do outro lado
Ele tem duas cabeças sobrepostas
Uma olha para frente, a outra para trás
O pescoço contorce-se entre falantes
O chamamento das sereias urbanas
Nas suas possantes naves terrestres
Cantam alto sua canção milenar aos ventos
A noite acolhe o imaginário e os deuses tortos
Desfilam arrogantes marcas nos capôs do capital

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