Os gafanhotos me perseguem hoje, incomum numa megalopole e o segundo pelo dia igual,consecutivo. Fez-me lembrar dos primeiros que catava em gramado de instituiçao infantil na qual passava todo ou parte do dia, lembro apenas que era uma das ultimas crianças a irem embora. Lembro dos periodos de recreaçao solitaria e que conversava com alguem real ou imaginario, nao sei, mas era raro, por isso nao lembro se menino ou menina. Talvez fosse em periodo em que mal se diz o nome e juntar os dedos certos para dizer a idade era um prodigio, o que pensar da noçao de tempo, nosso carcereiro.
Onde esta o gafanhoto mesmo, o do presente? Localizei-o ainda proximo do facho do quebra-luz improvisado, lanterna de led na parede apontando o teto. Vejo as patas longas verdes e flexiveis como haste de flor do campo, dobram-se sobre si e abraçam o corpo alado.
Agora acho que habita o breu da sombra da noite escurecida pela falta de brilho da vida, a escuridao se cobre de varios tons vazios e vadios, tavez sombrios como os penhascos que o ser humano insiste em se autoflagelar.
Agora ele volta ao centro do palco luminoso, escala lento a parede branca que projeta a sombra diante de si e caminha lento, volta-se para o holofote, cuidadoso, congela, permanece catatonico, sai do transe e vira as costas tranquilo para o arremedo do dia e o seu deboche.
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